SHARING IS CARING #8
Leio, logo existo.
Recentemente fomos agraciados com notícias de que grandes empresas de tecnologia estão comprando - e destruindo!!!! - milhares de exemplares de livros para treinar suas IAs, incluindo edições raras e publicações descontinuadas. Algo muito doloroso (para não dizer assustador) para alguém que aprecia literatura, valoriza a escrita e as pessoas de verdade que estão por trás dela.
Em um mundo cada vez mais dominado por robôs e algoritmos treinados para agarrar o que de mais valioso temos para oferecer - nossa atenção - meus maiores atos de resistência são continuar publicando slow content através da minha newsletter, comprar livros em livrarias e incentivar todos ao meu redor a ler sempre que tenho a oportunidade.
Sei que a literatura é válida em qualquer formato, mas por mais que eu aprecie a praticidade e leveza do Kindle, de alguns anos pra cá só tenho lido livros em papel. Isso em grande parte com o intuito de passar menos tempo do dia olhando para uma tela, mas também porque o sensorial do ritual da leitura física é muito prazeroso: sentir as páginas nas mãos, o cheiro de livro novo, escolher o marcador combinando com a capa, marcar as passagens emocionantes e, por fim, a sensação de dever cumprido ao guardar o volume lido de volta na prateleira.
Abrir um livro físico e não ter anúncios é o momento mais pacífico do meu dia. Paula Jacob
Então, como compartilhar é um ato de carinho, trago na 8a edição do Sharing is Caring as minhas leituras favoritas do ano até aqui, incluindo passagens selecionadas que representem o core de cada publicação. Assim podemos ler e devanear juntos.
Ao rever minha lista de lidos recentes, o que mais me chamou a atenção foi como ela está eclética: dentre os queridinhos, há temas e gêneros literários bem distintos uns dos outros. Por isso também achei legal compartilhar, como sempre me pedem recomendações de leitura, nessa edição vai ter opção para todos os gostos.
Segue então o podium com meus cinco preferidos de 2026 até agora:
NÓS, O ATLÂNTICO EM SOLITÁRIO, TAMARA KLINK
Terminei a leitura com uma grande admiração pela Tamara, sua coragem e sua maneira de enxergar a vida e os desafios à frente. A forma como ela descreve a solidão em alto mar me fez traçar um paralelo com os relacionamentos que tenho em terra firme, e como foi lidar com despedidas e distâncias durante as mudanças de país, tanto na ida quanto na volta.
A interrupção temporária das comunicações e desconexão do mundo real enquanto fazia a travessia do Atlântico também permeia a discussão sobre estar presente no aqui e agora, a qual tenho voltado com certa frequencia nos últimos tempos… e só comprovou o benefício que foi ficar fora do Instagram por um ano e meio.
Preciso parar. Preciso chegar. […] Estou pronta para um encontro súbito com as pessoas mais queridas? […] Pronta para caber num calendário e pensar no que pensarão os outros antes de pensar no que penso eu? - Tamara Klink
CRIME NO COPAN, VICTOR BONINI
Publicado no mês que o Copan completa 60 anos de história, este suspense cheio de reviravoltas prende a atenção do início ao fim, ao mesmo tempo em que as páginas conseguem imprimir a beleza e imponência do edifício que é um dos principais cartões postais da cidade de São Paulo.
O mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar. Oscar Niemeyer, na abertura de Crime no Copan.
Eu adoro um thriller, acho que esse gênero é o melhor que existe quando enfrentamos uma ressaca literária. E nesta publicação, o leitor envolve-se não apenas com o enredo, mas também com os personagens que o populam, e acho que foi isso deixou a narrativa policial ainda mais aconchegante.
A CABEÇA DO SANTO, SOCORRO ACIOLI
Quando li que este livro havia sido desenvolvido durante uma oficina de escrita de Gabriel García Márquez, soube que não tinha outra opção senão adquiri-lo e devora-lo.
A talentosa autora brasileira conta a história de um jovem que tem o fantástico dom de ouvir as preces das mulheres para Santo Antônio, e usa deste artifício para, claro, ganhar muito dinheiro. Um delicado livro sobre sonhos, crenças e pobreza; mas o mais importante: a importância de seguir nosso coração.
-História de antigamente é assim que já foram há muito tempo?
-Sim, filho.
-Então antigamente é um tempo, avó?
- Antigamente é um lugar.
-Um lugar assim longe?
-Um lugar assim dentro.
Poema de Ondjaki, nas páginas de A Cabeça do Santo
THE WINNERS, FREDRIK BACKMAN
Quem me acompanha há algum tempo sabe que eu não canso de recomendar Backman, meu absoluto autor favorito. Ele tem um talento em passar emoção através das palavras de uma maneira que eu nunca vi igual. Inclusive seu romance mais recente, My Friends, foi uma das minhas leituras preferidas de 2025 e tem versão em português pela editora Rocco.
Eu já havia lido os dois primeiros volumes da série Beartown há algum tempo atrás, e quando encontrei a terceira parte da trilogia em uma livraria em Londres no mês passado, sabia que era o momento de finalizar essa história.
A narrativa se passa numa pequena cidade na Suécia em que tudo gira em torno do Hockey. Política, relacionamentos e amizades se formam ou se destroem pelo esporte, e a história começa quando a filha do diretor geral do clube é abusada pela estrela do time, e cabe a todos na cidade escolherem de qual lado vão ficar nessa disputa pela verdade, da qual ninguém sai como vencedor.
Você alcança o sucesso ao ter uma integridade extremamente elevada, mas absolutamente nenhum prestígio. Isso porque a integridade diz respeito a quem você é, enquanto o prestígio diz respeito apenas ao que os outros pensam de você. Fredrik Backman
O SOL É PARA TODOS, HARPER LEE
Como contei nessa edição da newsletter, na reforma do nosso apartamento realizei o sonho de ter minha própria biblioteca. Agora estou no processo de preencher Marion (esse é o nome dela) com títulos que eu já havia lido no Kindle há anos atrás e que apesar de serem meus favoritos da vida, ainda não os tinha em formato impresso.
Foi então que comprei e li pela segunda vez este clássico norte-americano, e a releitura só reforçou meu sentimento de que ele deveria fazer parte do currículo obrigatório da formação do ser humano.
A narrativa de Lee fala sobre racismo, desigualdade e injustiça pelo ponto de vista de duas crianças. Interessante e poderoso ver o desconforto nascer no peito de quem ainda não compreende ao certo o por quê, mas sabe que tem algo errado ali.
Antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não se deve curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa. Harper Lee

Espero que essas recomendações possam contribuir para seu hábito de leitura, ou então servir como sugestão na compra de um presente para alguém querido. Só lembre-se de escrever uma dedicatória bem linda na primeira página para partilhar seus próprios pensamentos. Afinal, compartilhar é um ato de carinho.
Me conta se já leu algum destes?
Ou, também, quais foram suas leituras preferidas do ano até aqui? Vou adorar saber.
Por aqui sigo devaneando (e um pouco louca),
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Fica aqui um fácil acesso às últimas edições, caso você tenha perdido:












Li 3 de 5 - Nós (um dos meus preferidos do ano passado), O Sol é para todos e Cabeça de Santo. Os dois primeiros amei e quero reler, o cabeça de santo não me pegou tanto quanto a maioria, acho que não tive tanta paciência para o devaneio dele. Os outros dois não conhecia mas fiquei intrigada.
De recomendações, deixo Meridiana, que fala lindamente de uma família negra pela visão de cada um de seus integrantes, e Névoa, um clássico antigo espanhol com um estilo bem peculiar, que acho que vale a experiência. São dois que li recentemente e gostei bastante.