#73_ CORAGEM.
Para dar o próximo passo ou permanecer parado no mesmo lugar.
Há algum tempo venho pensando sobre coragem, mais especificamente em como a cada ano que passa eu sinto que tenho menos dela dentro de mim. Essa sensação ficou mais inflamada há alguns dias atrás, quando em uma conversa com meu irmão surgiu o assunto de pular de paraquedas. Nós dois já tivemos oportunidade de fazê-lo e, enquanto ele dizia que saltaria novamente sem nem pensar duas vezes, eu afirmava que 1. não tinha ideia de como a Giuliana de 15 anos atrás teve a bravura de pular (#jovem) e que 2. não há dinheiro no mundo que me faria repetir o ato nos dias de hoje - se bem que agora repensando, acho que depende da oferta ;) .
Mas o meu auto-diagnóstico de recém-medrosa não começou nesse papo. Ultimamente venho notando algum declínio nos meus padrões de coragem, como por exemplo o fato de que do nada passei a ter pavor de estrada e mais medo ainda de dirigir à noite sozinha - sem que algo tenha acontecido que justificasse um trauma ou um gatilho.
Como sou ansiosa crônica e estou passando por um momento pessoal delicado, tenho buscado por experiências que me ajudem a desconectar temporariamente do mundo. Podem ser atividades até que simples, banais, mas que me forcem a deixar minha mente livre do caos da realidade do dia a dia.
Eu já sou há anos praticante do Yoga, um verdadeiro refúgio com sua filosofia enraizada no viva-o-aqui-e-o-agora: afinal de contas, só é possível respirar no presente. Mas eu sabia que havia um nível superior a ser desbloqueado: o hot yoga.
A prática do hot yoga é realizada em uma sala climatizada a 40ºC. O calor aumenta a flexibilidade e acelera os batimentos cardíacos, exigindo foco redobrado na respiração para manter o equilíbrio e a presença.
Eu sempre tive medo de explorar essa modalidade da prática pelo fato de que minha pressão é bastante baixa e é raro mas acontece com mais frequência do que eu gostaria um leve desmaio. Inclusive, fun fact: uma das ocasiões em que perdi a consciência foi no salto de paraquedas. Lembro-me do instrutor me empurrar pra fora do avião e no momento seguinte acordei na metade da distância entre o teco-teco e o chão, embalada pelo som das risadas do homem amarrado às minhas costas.
Mas voltando ao hot yoga e as igualmente fortes vontade de praticar e falta de coragem para tentar: repassei na minha cabeça as palavras mais repetidas pela minha terapeuta em nossas sessões (por motivos de ser a filha mais velha, além da ansiedade também sofro de pré-ocupação crônica):
Giuliana, se você fizer isso, qual é a pior coisa que pode acontecer?
Bem, o máximo que poderia acontecer seria eu passar mal no meio da aula e sair da sala, seja pelas próprias pernas ou carregada. Apesar de desagradável, não seria o fim do mundo; e eu ao menos teria tido a coragem de tentar and uma história para contar. Pois bem, avisei três contatos de emergência para que soubessem onde ir recolher o corpo e lá fui eu.
E como foi grande a minha satisfação ao perceber que eu não morri a experiência foi uma catarse revitalizante. Ao mesmo tempo em que eu me sentia empoderada por ter deixado o medo de lado, parecia que tudo de negativo dentro do meu corpo ia sendo expelido junto com cada gota de suor. Depois de colocar pra fora dois litros e quatrocentos ml dele, saí do inferno estúdio absolutamente plena.
Foi difícil, não vou mentir. Mas para a minha surpresa, a parte mais desafiadora foi o Shavasana, que é a postura final da prática, na qual você deita no tapete e passa alguns minutos sem se mover.
Voltei pra casa refletindo: por que que a parte que exigia força e equilíbrio foi mais fácil do que a sessão de relaxamento?
Logo entendi que enquanto seguia a aula, minha atenção total estava na respiração necessária para manter os equilíbrios; a mente comprometida com as posturas. Enquanto no relaxamento, minha mente voou naturalmente e se desprendeu de um foco obrigatório (até porque, esse é exatamente o objetivo), e meus pensamentos tornaram-se uma grande ciranda de MEU DEUS, QUE CALOR / CALMA, FICA PLENA / EU NÃO CONSIGO RESPIRAR / JÁ NADOU ATÉ AQUI, NÃO VAI MORRER NA PRAIA / DESMAIO IMINENTE / YOU’RE DOING AMAZING SWEETIE!
ps. me escreva se você pegou a referência dessa última frase ;)
Como adoro encontrar conexões entre o que escrevo e o que leio, ao desenrolar essa pauta, lembrei de uma passagem do livro O Colibri, que foi compartilhada pela Raisa Monteiro Capela em uma de suas últimas edições:
É preciso coragem e energia para ficar parado.
Não é apenas tomar uma iniciativa ou começar um movimento que nos configura corajosos. Às vezes permanecer - seja em um local ou um estado de espírito - exige muito mais coragem do que embarcar numa grande aventura.
Depois do que poderia ser uma publi para o Vidya Studio dessa reflexão sobre uma decisão tão boba quanto a de fazer uma aula nova e desafiadora, passei a me lembrar de vários outros pequenos atos de coragem que tomo no meu dia a dia, mas que passam-se despercebidos quando a única coisa que me vem à mente são meus medos recém adquiridos. Realmente é muito mais fácil visualizar nossas fraquezas do que nossas fortalezas.
E nessa correria louca do mundo que vivemos, talvez precisemos mesmo de coragem para ficar parados na frente do espelho por tempo suficiente para nos enxergarmos com mais carinho.
Por aqui sigo devaneando (e um pouco louca),
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Fica aqui um fácil acesso à última edição, caso você tenha perdido:
O livro Nós, o Atlântico em Solitário da Tamara Klink, foi minha leitura favorita do semestre. Tudo a ver com o tema desta edição: é sobre ter coragem para fracassar e conhecer sua própria força.
Crime no Copan, o novo livro de suspense do meu amigo Victor Bonini (chic ela né) me prendeu do início ao fim. Eu adoro thrillers, e esse foi ainda mais bacana ao colocar no centro da narrativa, um ícone de São Paulo.
A Marina Roale escreveu um brilhante texto sobre repertório e (bom) gosto em um mundo cada vez mais performático e recheado de IA.











São essas pequenas vitórias que vão tornando tudo compensador! Sabe que a maternidade me deixou muito medrosa. Não faço nada radical, tenho medo de elevador, de altura, de morrer dormindo. É terrível. Eu jamais cogitaria essa yoga quente kkkkkkkkkkkkkk teria medo de infartar.
Venho trabalhando esse medo descompensado, porque gasta-se muita energia nisso tbm. Obrigada pela menção, Giu! ❤️
eu peguei a referência hahahahaha
e esse texto me deixou presa na pergunta:
“por que que a parte que exigia força e equilíbrio foi mais fácil do que a sessão de relaxamento? “
good to have you back 🤎