#74_ CRISE.
Sobre trabalho, escolhas e Off Campus.
Existe uma pauta em comum em todos os meus grupos de amigas no momento: a crise no trabalho. Venho conversando sobre isso com mulheres que atuam em áreas variadas, com realidades e planos de vida totalmente diferentes, e ainda assim todas parecem estar (sobre)vivendo em meio a uma névoa negativa na vida profissional.
Os cenários são diversos: tem aquelas que enfrentam ambientes corporativos péssimos ou conduzem um trabalho em que não acreditam pela contrapartida da remuneração & benefícios; enquanto há outras que passam exatamente pelo oposto e sentem-se frustradas por não conseguirem atingir o patamar financeiro que gostariam. Há outras que viveram longos meses em desconforto e insegurança por conta de um layoff silencioso que se estendeu por um ano inteiro. Amigas desligadas após voltarem da licença maternidade, outras cujas posições simplesmente deixaram de existir.
Obviamente é muito claro que não há, principalmente no aspecto corporativo, um mundo ideal. Tudo não terás é o mantra que há anos rege minhas escolhas de vida e me mantém com os pés no chão sabendo que, no fim do dia, tudo é uma questão de perspectiva e equilíbrio de prós & contras. Cada escolha, uma renúncia, essa é a vida. Já diria o grande filósofo da nossa geração. #RIPChorão
Mas ainda assim, me parece muito radical que nenhuma das brilhantes mulheres ao meu redor esteja realmente realizadas profissionalmente e isso me fez querer analisar mais a fundo para tentar encontrar os pontos em comum dentre essa comunidade de Milennials desiludidas.
Depois de muita pesquisa (leia-se brunches regidos de papos & vinhos), cheguei em alguns pontos de confluência:
Enough is enough
Nessa altura do campeonato, não aceitamos mais qualquer coisa. No início da carreira engolimos muito sapo e tomamos muito na cabeça: nada mais do que o esperado; afinal estávamos apenas dando os primeiros passos em nossa carreira e precisávamos aprender na pele como funciona o mundo corporativo.
Mas não mais. The dog days are over e agora sabemos falar não. Toda a resiliência e bagagem que adquirimos enquanto engatinhávamos agora nos permite caminhar forte e assertivamente. Temos maturidade para nos retirar dos espaços onde não somos valorizadas e autoconhecimento para identificar ambientes que não fazem nada além de drenar nossa energia e saúde mental.
Ao que me leva ao meu próximo ponto:
E agora?
Seguimos à risca a cartilha que nos foi recomendada para que conseguíssemos “chegar lá”. Fomos subindo os degraus da escada profissional e, enfim, alcançamos o patamar que há anos lutávamos para conquistar.
Mas de repente… ele não é tudo aquilo que esperávamos.
Ou então, é sim o que sonhávamos, mas o trajeto até lá nos custou muito mais do que estávamos dispostas a renunciar, e o saldo dos prós & contras ficou negativo.
Ou, pior: observamos alguém com metade de nossa capacidade assumindo posições de prestígio e nos sentimos injustiçadas. E a comparação com os colegas passa a ser um exercício diário que prejudica não apenas nossa autoestima, mas também a autoconfiança que passamos décadas lapidando.
E é exatamente olhando para os lados que também mora um perigo:
A amplitude de escolhas nos limita
Nunca antes houve um leque mais amplo de possibilidades de se ganhar a vida do que agora: empreendedorismo como shift de carreira, trabalho remoto & vida nômade, influência digital e a ascenção da creator economy, isso sem falar da máfia dos cursos sobre lançar cursos, das receitas de Linkedin infalíveis para faturar sete dígitos em seis meses ou até vender conteúdos só para fãs.
A grande oferta de escolhas que poderia ampliar nossos horizontes profissionais e monetários acaba tendo o efeito contrário: nos confunde, paralisa e impede de tomar decisões. É como ir àquele restaurante com cardápio inesgotável: você gasta tanto tempo para escolher entre a massa, o sushi, a carne ou a salada, que quando o prato chega já nem lembra mais o que pediu mas tem certeza de que a refeição do seu companheiro de jantar será muito melhor que a sua.
Puxando uma tangente da pauta profissional para traçar uma conexão que pode parecer aleatória, mas que na minha mente devaneadora faz sentido: a completa obsessão das Millennials pela série Off Campus.
Uma tendência viral que saiu totalmente do controle, do dia para a noite todas as minhas amigas só falavam sobre isso. Por um momento me pareceu curioso que mulheres 35+ estivessem viciadas em acompanhar personagens vivendo seus primeiros anos na vida adulta, bem no início da faculdade; uma vivência que já está fora da nossa realidade há muito tempo, com pautas que já não faziam mais parte de nosso repertório.
Mas depois de refletir bastante sobre isso (leia-se, mais brunches, mais papos e mais vinhos), eu tenho alguns pitacos sobre as raízes dessa obsessão:
Nostalgia & escape
Não é de hoje que a nostalgia tem tomado conta dos conteúdos que consumimos. Com o mundo ultra-veloz em que vivemos, ela se apresenta como um refúgio para voltarmos a uma época mais leve, menos turbulenta.
Enquanto a vida real é de frustração profissional e muita energia gasta apenas para performar entregar nossos deveres todos os dias, acompanhar os dramas jovens da série oferece um escape perfeito para desafogar a mente depois de um ano um dia difícil no escritório.
Fora que o apelo estético da série também ajuda, não vou negar.
A viralização e o pertencimento
Algo que pouco se fala sobre a liderança é o quanto ela é solitária. Acabamos nos fechando para formar uma barreira entre o alto escalão e nossa equipe direta, para inspirá-los a ser sua melhor versão enquanto os protegemos de realidades complicadas até que eles estejam prontos para encará-los sozinhos.
Se na pessoa jurídica passamos o dia sendo uma muralha, na física ansiamos por uma convivência leve, uma troca com pessoas que compartilham das mesmas diversões que nós. E é exatamente no viral que encontramos a validação social que funciona quase como um colo.
Ausência de competição feminina
Enquanto fomos ensinadas que no mercado de trabalho, quanto mais subimos nas posições hierárquicas, menos espaço há para várias de nós; na série o que assistimos é uma pura parceria entre as personagens principais.
Elas são aliadas: torcem, vibram e celebram suas conquistas juntas, provando que há espaço de sobra para que cada uma possa viver sua individualidade e conviver num mesmo ambiente sem que uma seja uma ameaça para a outra.
Um sopro do que girlbossing realmente deveria significar.
Esses dias li uma frase em uma newsletter que eu amo, a The Magic Hour, que acredito que tem tudo a ver com a pauta dessa edição:
Nós nunca estamos sozinhas em nossos sentimentos, ainda que as circunstâncias entre nós sejam distintas. Caroline Cala Donofrio
Se isso de alguma forma servir de conforto: sempre haverá alguém que compartilha das mesmas sensações, angústias e dúvidas que vivemos internamente.
E o melhor que podemos fazer umas pelas outras é gerar a conversa, nos abrir e dar espaço e compreensão para que as mulheres ao nosso redor façam o mesmo, conectando vivências em comum e combinando nossas forças para seguirmos mais longe, juntas. Assim como Hannah e Allie fazem na série.
Se esse assunto fez sentido aí pra você, me conta?
Por aqui sigo devaneando (e um pouco louca),
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Fica aqui um fácil acesso às últimas edições, caso você tenha perdido:
[📝] Uma ótima reflexão sobre como lidar com o tempo pela bibs!
[📝] A Ana Margonato trouxe o tema da importância de celebrar também o percurso e não apenas o destino.
[📖] Em geral não consigo me envolver com narrativas em que não gosto dos protagonistas mas em Impostora - Yellowface, esse é exatamente o objetivo da autora: a narradora é uma narcisista odiável, e é isso que torna a leitura tão interessante.
[📝] A nova geração da moda, um texto super interessante sobre a complexidade das criações para gerar encantamento, por Camila Yahn











A grande maioria das mulheres que eu conheço que estão no mundo corporativo estão vivendo essa sensação de inadequação e de vida passando enquanto nos cansamos. Me incluo nessa! Me identifiquei com suas reflexões, Giu... seguimos na busca do equilibrio, né? <3 Adorei o texto!
Adorei o texto! A gente acredita que a vida adulta é um chão estável, e quando chegamos nela vemos que não é nada disso. Foi mera projeção infantil. Daí nos frustramos porque as coisas não saem como supostamente previmos ou planejamos.
É a vida... Kkkkkkkkkkkkkk o negócio é encontrar alegria para continuar a despeito dos sonhos não realizados.